M. 1

Ser mulher é uma coisa doida. Imagine ter que pensar duas vezes na roupa que você usa para ir à padaria. Agora, imagine ter que pensar nisso e em mais trilhões de coisinhas e coisonas duas, três, vinte vezes, todos os dias da sua vida. “Será que estou gorda demais para essa roupa?”. “Será que fui agressiva nessa reunião?”. É foda pra caralho.

Moldar mulheres pela insegurança é uma escolha social para manter um modus operandi machista e patriarcal – é a certeza que estaremos sempre lá, arrumadas, femininas, dóceis, cumprindo bem nossos papeis. Hoje em dia bem que já demos uns passinhos e hora ou outra você vê uns questionamentos em lugares em que não apareciam. Mas, é só dar uma pisada mais forte que, ops: não se atreva não, mulher.

O que eu quero falar mesmo é que essa insegurança é uma merda e ela é muito, mas muito real. E tá por aí feito epidemia: nas descontruidonas da porra, nas que se encaixam em diversos padrões de beleza, sexualidade e comportamento, é geral. É bem chocante.

Eu não sou uma mulher insegura (na maior parte do tempo). Mas eu já fui. Eu já quis colocar silicone para ter peitos maiores. Eu já quis operar o nariz. Quis até mesmo ter um cabelo mais liso (pois é). Já fiz dietas malucas até a pressão cair. Já achei que eu era uma profissional questionável quando ouvia outros homens falando com propriedade sobre suas opiniões e eu travava. Também já desisti de dar ideias porque achei que as dos outros eram melhores que as minhas. Já tive que ouvir – e achei que era verdade – que as coisas que eu gosto de estudar eram muito masculinas e que o meu papel era dar um tom mais “feminino” à coisa. Cheguei a acreditar – de tanto ouvir – que eu era uma pessoa muito agressiva, arrogante e de gênio forte apenas por apontar posturas que me incomodavam e por dar a minha opinião quando estava subentendido que não era nem sequer pra falar. E, claro, já mudei de roupa infinitas vezes achando que uma saia era muito curta ou um decote inapropriado para ambientes corporativos e iam me “entender errado”. A minha lista fica bem por aí, mas poderia ser pior. Podia ter aí no meio episódios de abusos psicológicos, transtornos alimentares, relacionamentos abusivos e todas as suas conseqüências gravíssimas, baixa auto-estima, auto-sabotagens e etc.

E o que eu to querendo dizer é que, infelizmente, eu sou uma exceção. Eu tive experiências boas e ruins e uma mãe maravilhosa que me permitiram ser assim hoje. Mas é preciso lutar muito pra se livrar da maior parte das noias que colocam na nossa cabeça. Se você já conversou meia hora com uma mulher, você sabe do que eu to falando. É um puta esforço se enxergar livre dessas noias construídas socialmente de maneira intencional, mas quando você finalmente percebe que não se importa mais e, mais que isso, que abraça cada pedaço do que você é, tudo começa a fazer sentido. E daí você começa a ter orgulho de quem é em cada aspecto da sua vida. Se tem uma coisa que eu acho foda em mim é essa capacidade de me despir cada vez mais dessas amarras e padrões que tentam nos encaixar. A gente nem percebe, mas perde tanta coisa cotidiana por causa disso – a manhã de sol na praia por conta do corpo, a noite de cerveja com as amigas, uma viagem para um lugar desconhecido, a possibilidade de fazer o que bem quiser quando quiser.  Pode parecer pouca coisa reconhecer como você lida com si mesma ou com a vida, mas quando se é ensinada sistematicamente a não se reconhecer como dona de suas ações e a desconfiar de tudo que parece se encaixar do jeito que você planejou pra si, é uma vitória e tanto. É libertador.

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