Existe amor em Moscou – uma tarde no cartório

Guarde essa palavra: liubov (любовь). Em russo, isso significa amor. No caso dessa história, o amor personificado em uma senhora fofa – o nome dela? Liubov!

Conhecemos Liubov em uma situação louca, inusitada e russa. “Russa” aqui significa: para contar naquelas horas em que as pessoas perguntam sobre algum caso que imaginam acontecer somente na terra de Putin. [normalmente elas esperam algo envolvendo mafiosos com dente de ouro e golpes diversos, mas vou contar sobre uma ida ao cartório mesmo].

Se você pretende ir à Rússia, provavelmente, durante o planejamento, vai cair em algum site –confuso – que diz sobre um tal registro migratório. O que é isso? Nada mais que um papel que diz que você entrou no país legalmente e que está devidamente hospedado em algum endereço – pasmem – no território russo.

Ao menos que você contrate uma agência de viagens ou fique em hotéis acostumados a receber hóspedes estrangeiros (lá, há lugares que só aceitam russos, justamente por questões burocráticas), vai ser uma aventura conseguir o seu registro migratório.

– A cada cidade que passar [aqui pode ser adicionado: e ficar mais de 3 dias] você deve se registrar;

– Você deve fazer o registro em até sete dias úteis da sua entrada no país;

– O registro custa entre 10 e 30 dólares;

– Se a polícia te parar na rua e você não tiver o registro, pode levar uma multa de 50 dólares;

-Se a polícia te parar na rua ou, se ao sair do país, você não estiver devidamente registrado, pode levar uma multa de 50 dólares e até ser preso;

– Você deve se registrar nos correios ou nas delegacias policiais;

-Em caso de hospedagem na casa de algum russo, o mesmo deve te acompanhar no ato do registro;

Isso, com as devidas variações, contradições e acréscimos, é o que estrangeiros dos mais variados países dizem por aí na Internet. De todas as hipóteses, resolvemos acreditar na segunda e na última e descartar todas as outras.

Graças ao feriado prolongado de Natal (o ortodoxo é em 7 de janeiro), nossos 7 dias úteis demoraram uma vida para passar. No sexto dia, infernizamos Elena, a mulher que nos alugou o apartamento em Moscou, para nos levar ao cartório e fazer o registro: era melhor garantir.

Na casinha número 7 estava o pessoal – leia-se tiazinhas – do registro migratório nos esperando sem nenhuma simpatia e com muitos papeis em cirílico.

E é aí que entra Liubov. Na casa nº 7 e na história. A mãe de Elena teve que parar tudo o que estava fazendo naquela tarde de -15ºC  em Moscou para registrar dois brasileiros que ela não conhecia em seu endereço: Ковров переулок, № 28, строение 1, квартира 24 (Kovrov Pereulok, nº 28, prédio 1, apartamento 24).

Nas quatro horas passadas no cartório, preenchemos trocentas fichas em cirílico sem nenhuma pista em inglês. Uma atendente cismou que o meu sobrenome viraria “Natakci” e não Natacci em russo e entre cismas e erros rasuramos alguns papeis.

Durante todo esse tempo, Elena tentava puxar os mais variados assuntos: quanto custa trocar o vidro do iPhone no Brasil, que língua nós falamos, etc. Ela também levou algumas broncas das senhoras mal humoradas do cartório. Por ficar no meio do caminho, por falar alto demais, por usar o telefone…

Mas, o ponto alto foi quando a moça inocentemente perguntou se o Brasil fazia parte da União Europeia, já que era colônia de Portugal. “Lena, Lena, não acredito!”. “Geografia, Lena! Nem parece que foi à escola. O Brasil é na América Latina e não tem nada de colônia, Lena, só fala a mesma língua que Portugal!”, falava Liubov no tom dos russos indignados. [nessa hora, apenas desfrutei da sensação de entender tudo e de rir por dentro].

Saímos de lá exaustos, mas com o registro migratório em mãos. No aeroporto, ninguém o pediu, ninguém nem sequer mencionou sua existência, ninguém nem ligou para aquele pequeno e glorioso pedaço de papel amassado. Pelo menos, parece que Liubov gostou da gente.

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