A Ucrânia de fora da Euro Maidan

Quando eclodiram os protestos em Kiev, no fim do ano passado, obviamente me tornei um elo entre meus amigos e a Ucrânia, pelo fato de ter morado lá em 2009 e 2010 e por quase nunca ouvirmos falar do país nos jornais, na televisão e até mesmo na mídia alternativa. A Ucrânia não ocupa um papel importante nas relações com o Brasil e sua cultura não está amplamente difundida por aqui e ponto.

O engraçado é que eu, tão interessada pelo país, fui saber dos protestos por meio de terceiros. Logo que me falaram dos protestos e de sua natureza contrária ao ato do presidente Yanukovych em recusar um acordo com a União Europeia, fiquei bastante confusa. A primeira coisa que pensei foi que a Ucrânia que conheci às vésperas de uma eleição presidencial jamais se manifestaria contra isso e de maneira tão insistente.

Até onde eu sabia e tinha ouvido falar por lá, a União Europeia ainda representava um grupo que utilizava países do antigo bloco soviético como massa de manobra para forjar uma integração regional às custas de acordos econômicos e metas não muito animadoras e, além disso, impedir a prospecção de novos negócios desses países com a Rússia.

Deduzi que os protestos poderiam ser coisa de Kiev e não da Ucrânia inteira, como a mídia parecia supor. Ou de cidades do oeste mais próximas da Polônia (que ficaram durante diversas ocasiões no vai-e-vem de ser parte da Polônia ou da Ucrânia, como Lviv e que viram seu país vizinho integrar a União Europeia). Também suspeitei que era algo articulado pelos grupos ultranacionalistas e de extrema direita do país e falei isso para todo mundo que me perguntava, convicta.

Dito e feito. Com o passar do tempo, e com a crescente cobertura – frouxa e papagaia – da mídia de todos os países, vi que nenhuma das hipóteses era descartável.

Rodei o país, conheci cidades em regiões do extremo sul ao extremo norte, de leste a oeste. Estive na fronteira com a Polônia, com a Hungria e com a Rússia. Em Lviv tive conhecimento de grupos nacionalistas que pixavam símbolos nazistas nos muros e atacavam imigrantes. Conheci um desses imigrantes, Miguel, um espanhol de 30 e poucos anos, que morava na cidade e andava com vestimentas afegãs, a barba preta e grande como um padre ortodoxo e um grande chapéu como os que judeus usam. No frio de -15ºC, ele usava meias no lugar de luvas. Em Lviv, Miguel havia sido esfaqueado nas mãos por um grupo de nacionalistas ucranianos. Em outras ocasiões, já havia sofrido agressões físicas e verbais, mas, não sei porque, gostava da cidade e continuava lá.

Do outro lado do país, no sul, morei na cidade de Mariupol. À beira do mar de Azov, onde do outro lado é a Rússia, está a cidade tipicamente proletária e industrial, com um grande porto e imensas indústrias metalúrgicas, algumas das maiores do país.

Mariupol foi completamente destruída pelos nazistas durante a Segunda Guerra e reconstruída pela União Soviética. De seus 500 mil habitantes, pelo menos 2/3 dos que estão empregados trabalham nas indústrias metalúrgicas da região. A exportação de aço, minério e gás proveniente de Mariupol e de outras regiões ao leste da Ucrânia é extremamente significativa para o PIB do país, e a maior parte do material vai para a Rússia. O Brasil também importa de Mariupol.

Tudo lá gira em torno da indústria e do cultivo de cereais, desde a URSS. As universidades estão ligadas à produção fabril e, por isso, são conhecidas pelos cursos de Engenharia, Tecnologia, Informática, Matemática e Ciências Exatas aplicadas.

O frio não é impedimento para nada na cidade. Os aviões decolam nos aeroportos, as aulas continuam, os ônibus e bondes estão lotados, pessoas colocam os carros para percorrer as estradas cobertas de neve, os trens chegam e partem a todo tempo na estação central, mesmo sob um frio de -25ºC com a neve caindo constantemente. Por não ter opções empolgantes de entretenimento – e se tivesse a maioria da população não poderia pagar – o sucesso da cidade é o boliche, junto com algumas casas noturnas e os cafés, todos em estilo soviético, sem frufrus. Há supermercados enormes, com wifi e lanchonetes, mas não há shoppings. Nenhum. No máximo, algumas galerias que vendem de tudo. O que rola mesmo são os mercados a céu aberto com milhares de barracas expondo antiguidades (muita coisa soviética), utensílios domésticos, livros, roupas, acessórios para o frio e pães: lá ainda há a tradição de comprar o pão artesanal tamanho família e carregá-lo embaixo do braço pelas ruas até chegar em casa. Talvez pela falta de espaços fechados e climatizados que reúnam várias possibilidades de consumo e de entretenimento, as pessoas saem às ruas o tempo inteiro.

O russo é o idioma oficial e o falado frequentemente em Mariupol. As placas são em russo, se lê em russo, se ensina em russo nas escolas. Eu mesma tive que aprender a falar russo. E não é porque a Rússia foi  lá e obrigou todas essas cidades a falarem seu idioma. A maioria da população em Mariupol é ucraniana de etnia russa e esse vai-e-vem de territórios – ora sendo russos, ora sendo ucranianos, e fazendo parte por décadas da URSS – justifica tal carga cultural. 

O visual da cidade é encantador, soviético de cabo a rabo. Os prédios são todos iguais na parte mais central da cidade e nas proximidades das fábricas, (exclui-se o subúrbio com as pessoas mais ricas que constroem casas maiores em estilos diversos), com varandas improvisadas e elevadores que raramente funcionam. A cada tantos blocos de prédios há uma praça, um parque infantil e uma escola (as públicas são conhecidas pelos números). Os prédios das escolas, aliás, tanto das particulares quanto das públicas, são idênticos. Os restaurantes populares ainda funcionam no estilo de refeitórios soviéticos, como os bandejões que temos aqui nas universidades. Ao lado da residência estudantil onde morei havia o mais curioso deles: ainda mantinham os pôsteres soviéticos nas paredes. Outro tinha as cortinas rosadas e pomposas típicas do leste europeu na década de 1980.

Tive a sorte de estar no país na época das eleições presidenciais, em janeiro de 2010. Como trabalhei em escolas, pude acompanhar de perto a mobilização das mesmas para montar as urnas e enfeitar os espaços com as cores da bandeira ucraniana. Vira e mexe algum professor me presenteava com uma caneta ou um chaveiro com o nome de seu candidato de preferência. Na época eu nunca tinha ouvido falar do tal Yanukovych, hoje conhecido pelo mundo inteiro.

Apesar de não ser o candidato ideal para a maioria das pessoas que conheci, elas votariam nele por assegurar a expansão dos empregos nas indústrias e manter as alianças comerciais estratégicas com a Rússia e outros países em desenvolvimento.

O Oblást (província) que mais votou em Yanukovych foi Donetsk, do qual Mariupol faz parte e onde estão localizadas outras cidades industriais. Yulia Tymoshenko, apesar de ter seu rosto estampado em toda esquina por todas as cidades que passei, era vista em Mariupol como não favorável aos trabalhadores do leste. De fato, obteve 0,43% dos votos do Oblást de Donetsk, enquanto seu maior eleitorado estava em Lviv.

Por tudo isso que contei não me surpreendi, e até esperei ansiosa, que as cidades do leste se manifestassem contra os protestos pró-União Europeia e contra Yanukovych. Não se trata aqui de uma questão dicotômica entre ideologias. A União Europeia não representa o capitalismo europeu contra a mãe Rússia controladora. É muito mais que isso e a Ucrânia não é um quintal onde todos podem jogar à vontade. O país tem interesses econômicos definidos e age de acordo com suas possibilidades. Não há como negar que estar em sintonia econômica com a Rússia é, no momento, uma possibilidade vantajosa. Mas a mídia não parece se importar com isso e usa e abusa dos símbolos falidos da guerra fria dando a impressão de que a Ucrânia é um “gigante que acordou” da dominação russa.

Com o confronto instaurado em Kiev e seu desfecho, tudo que Tymoshenko e seus aliados queriam aconteceu. Os manifestantes tomaram o principal símbolo da cidade, a Praça da Independência e a batizaram de Euro Maidan, a praça Europa. Não arredaram o pé, mesmo com a contraofensiva violenta do governo, contaram com o apoio de milícias e grupos nacionalistas e de extrema direita, sob a tutela do líder Vitaly Klitchko e conseguiram depor o presidente.

Mesmo com pouca aparição na mídia, consegui ver mais de uma vez notícias sobre o lado leste do país. Mariupol apareceu na televisão! Sim, com seus trabalhadores vestidos de vermelho, com ferramentas de trabalho em punhos e ecoando dizeres contra a aproximação com a UE e a favor da manutenção de acordos com a Rússia. Junto de Mariupol, outras cidades engrossaram o coro dizendo que a UE não vai melhorar as condições industriais e econômicas da Ucrânia.

Depois de Yanukovych cair e o dirigente do partido de Tymoshenko assumir o país como presidente interino, os cidadãos das cidades ao leste ainda resistem em aceitar o golpe e o novo governo. Cidades na Criméia, em Donetsk e em Kharkov amanheceram balançando bandeiras russas, com cartazes contrários aos ultradireitistas e recusando-se a aceitar as novas autoridades. Alguns pedem a ajuda da Rússia para “conter o fascismo” instaurado em Kiev.

Muitos atentam para a perda de empregos nas minas de carvão, metalúrgicas e siderúrgicas ucranianas, já que, do ponto de vista da União Europeia, tais indústrias não são competitivas e podem, sim, encerrar suas atividades. Além disso, temem que os russos étnicos percam direitos no país e que o idioma russo deixe de ser reconhecido como oficial em algumas províncias. O presidente interino, inclusive, declarou que há uma séria ameaça de separatismo no país.

Era isso que eu estava esperando desde que os protestos começaram a ganhar força e projeção internacional. Sabia que Mariupol não ficaria calada. Nem suas cidades vizinhas. Nem a Criméia.

No início da crise europeia, em 2009, estudantes, mães de amigos e professores de Mariupol já falavam com muita desconfiança em relação à União Europeia. Contavam como os ucranianos em geral eram mal vistos, com as mulheres tidas como prostitutas e a maioria dos ucranianos destinados ao subemprego e a preconceitos diários. No plano político, queixavam-se das tentativas de aproximação com a UE depois da queda da URSS, sempre sob forte recusa da UE em aceitar as condições políticas e econômicas da Ucrânia em se manter próxima da Rússia.

Por que agora, depois de afundar a Grécia, Portugal, Espanha, entre outros, a UE quer a todo custo colocar a Ucrânia entre seus vários acordos comerciais, declarando o fornecimento de ajuda substancial para a superação da forçada crise política e se manifestando a favor de Tymoshenko sempre que pode?

Yanukovych caiu, o partido de Yulia Tymoshenko está no comando, os manifestantes de Kiev levaram os acontecimentos a um ponto surpreendente e conquistaram apoio internacional para vencer o confronto. Pela mídia brasileira, sem nenhum conhecimento sobre o país, foram chamados de manifestantes com a maior naturalidade até o último instante, mesmo com armas de fogo em punhos, milícias neonazistas, rostos cobertos e laboratórios improvisados para fabricar coquetéis molotov. Estranho que nunca se referiram a eles como vândalos, como somos tratados por aqui simplesmente por participar de manifestações. Imagine só o que a mídia falaria se encontrasse uma estação de metrô em São Paulo transformada em laboratório para fazer molotovs? Até de black blocks com causa eles foram chamados. Será que não viraram vândalos no discurso da mídia por que não eram de grupos de esquerda/comunistas, por que a Rússia é uma grande vilã e a União Europeia a grande salvadora dos países do leste, ou por que isso simplesmente não acontecera aqui no Brasil? Não é difícil saber.

Por último, é preciso enxergar que a Ucrânia está em movimento. E que isso não se trata de uma simples briga entre pró-Rússia e pró-União Europeia, entre direita e esquerda política e ideológica (o partido de Yanukovich também é de direita), entre cidades do oeste e cidades do leste. É difícil ignorar a eclosão de um movimento que reuniu, sob a liderança da direita, reivindicações e aflições comuns a uma parcela do povo ucraniano, mas agora as respostas à Euro Maidan chegarão de outras partes da Ucrânia, mostrando que, de forma alguma, a vitória forjada das novas autoridades representa a voz de uma democracia popular.

Enquanto isso, as estátuas de Lênin continuam em pé e firmes no leste do país e as indústrias produzindo. Por enquanto.  

Um adendo: No dia 8 de março, aconteceu uma manifestação em Mariupol organizada por diversas frentes populares. Dentre as reivindicações, muitos manifestantes pediam um referendo sobre a estrutura federal da Ucrânia, para que a população pudesse escolher se seus Oblásts (províncias) e cidades irão se aliar à UE e aceitar o novo governo golpista de Kiev ou estreitar alianças com a Rússia.
Como era de se esperar, muitos trabalhadores das indústrias da região estão sofrendo com ameaças de demissão em massa, com o objetivo de impedir que os mesmos saiam às ruas para expressar suas opiniões. Gestores de empresas estão convocando reuniões com os operários proibindo-os de se manifestarem em comícios anti-fascistas. Há ainda relatos sobre a perseguição a dissidentes, encabeçada por grupos nacionalistas, que está rolando em Kiev e em outras cidades do Oeste.

Ah! e resolvi escrever sobre minha experiência pessoal e tudo aquilo que pude conhecer em Mariupol que fosse relevante para o debate atual, (principalmente do ponto de vista da vida cotidiana dos habitantes) ao invés de me meter na briga oportunista entre UE – EUA x Rússia porque isso já sabemos: sanções, invasões e ameaças estão na pauta.

 

Praça da Independência

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2 Respostas para “A Ucrânia de fora da Euro Maidan

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