Fellini e sua crítica amarga em “A doce vida”

 

Por Rafaela Musto

O filme “A doce vida”, de Federico Fellini, não é tão doce assim. Lançado em 1960, é um dos mais expressivos retratos cinematográficos da Itália do pós-guerra. O personagem central, o jornalista Marcello Rubini, interpretado por Marcello Mastroianni, cobre as notícias do falso e frívolo mundo da alta sociedade romana do período. Em meio a uma infinidade de personagens famosos e exóticos, figuras extravagantes e mulheres lindas, Fellini realiza uma crônica social da época, retratando o tempo da velocidade, da influência norte-americana nos costumes sociais, dos carros, festas e mulheres formidáveis.

Ao optar por uma narrativa não linear e fragmentada, onde o eixo condutor é o jornalista Marcello, Fellini rompe com o cinema tradicional e inova tanto nas técnicas como na densidade crítica e irônica que acompanha as três horas de filme.

O sagrado e o profano são colocados lado a lado, a falta de comunicação é evidenciada em diversas passagens, a conversão de fatos reais em linguagem fílmica (como a cena inicial, em que os jornalistas estão em um helicóptero transportando uma estátua de Jesus Cristo para o Vaticano e tentam um contato, mal sucedido, com mulheres que tomam sol em uma cobertura), são apenas algumas contribuições de “A doce vida” para o imaginário do cinema e do cotidiano.

Além disso, o modo como retrata o surgimento dos paparazzi, fotógrafos de celebridades, foi e é referência para entender a atuação dos meios de comunicação ao longo do tempo. A sociedade do espetáculo, que alcançava seu estopim na década de 60 e que impera até hoje, é fruto do enfoque dado pela mídia a grandes figuras e ao prestígio reafirmado pelo povo.

Os personagens de “A Doce Vida” transitam num espaço desprovido de um signo forte. O mundo midiático é um mundo carente de sentido, de análise e de crítica, justamente porque não há mais espaço para signos que transformem tal realidade.

Os trejeitos dos personagens da alta sociedade romana são ironizados por Fellini em cenas longas e polêmicas, como a visita ao castelo de um nobre, onde todos saem para caçar fantasmas, numa seqüência louca e surpreendente. É importante lembrar que Marcello e os fotógrafos, mesmo não fazendo parte da burguesia, fazem parte desse espaço desprovido de sentido, e ainda por cima, contribuem para que ele continue assim, vazio.

 

O problema é que a falta de lucidez se apossa também de seus corpos e mentes, afetando suas relações pessoais. Marcello, por exemplo, vive cercado de mulheres. Uma famosa atriz hollywoodiana que desperta seu desejo, uma namorada ciumenta e possessiva e uma aristocrata aventureira são algumas das mulheres excepcionais que cruzam seu caminho. No entanto, nenhuma delas consegue preencher seu vazio interior, tomado por tolice, vaidade e insegurança.

Essa percepção de Marcello, que se torna agressivo e distante, vai se intensificando ao longo do filme e as festas e encontros da alta sociedade, antes gloriosas, se transformam em aparências e ilusões perturbadoras, que dão a sensação de absorver a essência e preservar apenas a carcaça. Diante da espetacularização dos acontecimentos, como o suicídio de seu lúcido amigo Stein, Marcello vê sua profissão se tornar alienação.

 A cena final, em que um grupo de pessoas encontra um peixe enorme na beira da praia, carrega um simbolismo capaz de resumir as transformações do filme. O peixe morto, seus grandes e intrigantes olhos e as medusas saindo de sua boca, representam tudo aquilo que cerca Marcello: um mundo incompressível, sujo e vazio, o mundo dos jornais e das celebridades.

Porém, parece haver ainda uma pequena chance de escapar das garras desse enorme monstro que é o meio midiático. Marcello reencontra na praia Paola, uma menina angelical, mas é incapaz de atender ao seu apelo, pois não consegue compreendê-la.

Analisar a genialidade de Fellini e de “A doce vida” é uma tarefa difícil. As surpresas que aguardam o espectador ao ver o filme são muitas e as reflexões são maiores ainda, como as críticas à função social do jornalismo e ao império midiático das celebridades. O filme encerra-se absolutamente pessimista, pois sendo uma crônica social e um retrato da alta sociedade romana, envolve um ambiente marcado pela superficialidade e por pessoas que se deixam levar pela espetacularização da vida, transformando tudo que era doce em amargo.

 

 

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4 Respostas para “Fellini e sua crítica amarga em “A doce vida”

  1. Muito interessante! E apesar de longo, em nenhum momento é monótono! Crítica árdua a sociedade das estrelas e classe alta. Não lembro de outro parecido. Mas ver Marcello recusar o convite da menina da praia no final é meio angustiante e fatalista, pois sabemos que não vai acabar bem. Se passarmos à época atual, provavelmente encontraríamos o personagem envolto em drogas!

  2. É um filme q parece ter também uma certa cara de despedida. Creio (se eu estiver errado, alguém me corrija) que esse filme praticamente termina com o neo realismo italiano e sua estética fantasiosa.

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