Rock: uma crônica social norteamericana – Parte I

Em homenagem ao Dia do Rock, aí vai um panorama histórico-cultural sobre a influência do rock no comportamento dos jovens norteamericanos dos anos 50 e sua importância para os movimentos culturais da década seguinte.
O texto está divido em três partes, que serão postadas ao longo da semana!

A sociedade de consumo norte-americana dos anos 50:

Após deixar a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos consolida sua posição de grande potência mundial, ao sair intacto e poderoso do conflito. O momento é marcado pela ascensão da tecnologia e do consumismo, e a sociedade está mergulhada no conformismo, condição essencial para o funcionamento do sistema.

A década de 50 exigiu que a população substituísse o culto ao individualismo pelo conformismo consciente. Durante o governo de Eisenhower, agir segundo os próprios interesses significava não colaborar para o desenvolvimento coletivo e harmonioso da sociedade. Pessoas alienadas, que sacrificavam seus desejos de autonomia pessoal para se adaptar à lógica dos grupos (cada vez mais frequentes em universidades, empresas, bairros, igrejas, etc), eram os cidadãos ideais para continuar mantendo a segurança do sistema.

Com o início da Guerra Fria, momento em que os movimentos populares estavam estabilizados e as negociações entre patrões e operários tomavam o lugar das greves, a maior ameaça temida pelo governo era a subversão interna, uma contaminação das ideias comunistas em território nacional. Daí o surgimento da política que ficou conhecida como “macartismo”, uma verdadeira caça a qualquer ação ou produção que pudesse ser considerada comunista ou de esquerda.

Em meio à paranóia e a uma política racial segregacionista, a sociedade afluente dos anos 50, extasiada pelos grandes templos de compras, os shoppings centers, e obcecada pela aquisição de bens de consumo, propiciou (sem tomar conhecimento) o surgimento de uma cultura especialmente voltada ao público jovem, a cultura rock, de modo que grande parte da indústria cultural passou a ser dirigida a esse nicho, que consumia produtos que seguiam os padrões comportamentais ditados pela música e pelo cinema da época.

Juventude transviada:

A partir do surgimento da cultura do rock’n’roll, com doses de irreverência, os jovens começam a indagar o estilo de vida levado por suas famílias, sempre respeitando valores morais e comportamentais pré-estabelecidos.

O rock’n’roll, além de ser a trilha sonora da inquietude jovem, funciona nesse período como um divisor de águas na indústria fonográfica. Anteriormente ao seu surgimento, o consumo musical era dividido entre música para brancos, como a música popular romântica de Bing Crosby e Frank Sinatra e o swing das grandes orquestras de Glenn Miller e Benny Goodman, alvo das grandes gravadoras nacionais, e música para negros, comercializada por pequenas gravadoras regionais. Graças à fusão do rhythm and blues dos negros e o country and western dos brancos mais pobres das áreas rurais, ambos estilos veiculados por pequenas gravadoras, há uma transformação do tradicional esquema da indústria fonográfica dos Estados Unidos, já que as grandes gravadoras são obrigadas a se adaptar à demanda criada pela mistura de estilos propiciada pelo rock e incorporam pequenos artistas aos seus negócios.
No entanto, ao ser incorporado pelas grandes gravadoras, o rock que é absorvido massivamente pela cultura jovem popular é aquele que ia parar no rádio e na televisão, cantado por brancos como Elvis Presley e Buddy Holly. Músicos essenciais para o desenvolvimento do estilo musical, como Chuck Berry e Little Richard, negros, não fazem parte do cenário popular em um primeiro momento.

Mesmo representando um choque para os padrões morais da época, o rock’n’roll da década de 50 não era uma música politicamente engajada em sua raiz, sua grande dose de inocência não acompanhava as atitudes transgressoras dos rebeldes. Ele representava ingenuamente as inquietudes da juventude, com letras que diziam sobre relacionamentos, histórias vividas no colégio, rachas de carro, etc, e que serviam de pano de fundo para a exaltação da dança e do ritmo, esses sim, agitados, irreverentes e subversivos, sobretudo aos olhos da classe média branca conservadora e tradicional.

Com a exaltação do rock, o jazz tradicional começa a perder seu espaço na década de 50, e caminha para um rompimento total com a música de massa e dançante, se tornando quase que uma arte abstrata, difícil de ser absorvida sem concentração. No filme Sementes da Violência, de 1955, por exemplo, há uma cena, embalada pela música Rock Around the Clock, interpretada por Bill Halley, em que alunos quebram uma coleção de discos de jazz tradicional de um professor, representando simbolicamente a ruptura da juventude transviada com os tabus e valores morais estabelecidos até então.

Um clássico pra fechar:

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